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Você Matou Meu Filho

Anistia Internacional Luciana Barreto
Escrito por Luciana Barreto

Anistia Internacional: PM do Rio mata dois por dia.

Os gritos daquela mãe nunca saíram da minha cabeça. Como moradora da Baixada Fluminense, já tinha vivenciado momentos difíceis. As execuções fazem parte do cotidiano e do imaginário de uma criança que nasceu em qualquer periferia do Brasil. Desviar do cadáver para ir à padaria é algo comum. Mas foi muito diferente daquela vez.  No meio da noite, os berros de “não mate meu filho, moço” tocavam minha alma como se viessem da torre de uma igreja. “Por favor, não mate meu filho”. Conhecia a mãe e o filho. Eram meus vizinhos. Ninguém fazia nada. Ninguém fez nada. Mãe e filho morreram abraçados. Foram condenados pelo “tribunal da periferia”, provavelmente vítimas de grupos de extermínio.

A história me veio à mente hoje, ao ler o relatório “Você matou meu filho”, divulgado pela Anistia Internacional. O documento, de 50 páginas, traz logo de início, o forte relato de Terezinha Maria de Jesus, 40 anos, mãe de Eduardo, 10 anos, assassinado pela polícia na porta de casa, no Complexo do Alemão, em 2 de abril de 2015, enquanto esperava pela irmã brincando com o celular. Segundo Terezinha, “foi tudo uma questão de segundos. ‘Eu escutei só um estouro e um grito dele: Mãe… Nisso eu corri para o lado de fora e me deparei com aquela cena horrível do meu filho lá caído’. Terezinha entrou em desespero, viu uma fileira de policiais militares e gritou: ‘Você matou meu filho, seu desgraçado maldito’. O policial respondeu: ‘Assim como eu matei seu filho, eu posso muito bem te matar porque eu matei um filho de bandido, um filho de vagabundo’. O policial apontou o fuzil na cabeça de Terezinha e ela disse: ‘Você pode me matar porque uma parte de mim você já levou. Pode levar o resto’.”

A Anistia Internacional denuncia  que nos últimos dez anos, de 2005 a 2014, a Polícia Militar do Rio, matou, em média, duas pessoas por dia em registros conhecidos como “autos de resistência” – cometidos por polícias sob alegação de defesa. A ONG relata o “uso excessivo” pela Polícia Militar do termo “auto de resistência” no Rio de Janeiro, em particular, na favela de Acari, onde ocorreram 10 dos 68 casos registrados como “homicídio decorrente de intervenção policial”.

A Anistia descobriu ainda que, quando se trata da investigação desses crimes, foi apresentada denúncia em apenas um caso dos 220 investigados nesta categoria em 2011. Um dos maiores problemas é a alteração da cena do crime. Sem contar que as testemunhas de homicídios por parte da Polícia raramente prestam depoimento, com receio de retaliações.

O relatório “Você Matou Meu Filho – Homicídios Cometidos pela Polícia Militar na Cidade do Rio de Janeiro traz ainda um panorama da situação de risco em que vivem os jovens negros no Brasil. Em 2012, a taxa de homicídios entre os jovens foi de 57,6. Mas a diferença na taxa de homicídios entre jovens brancos e jovens negros em algumas capitais é expressiva: em Recife, a taxa de homicídios de jovens brancos foi de 13,9, enquanto que a de jovens negros chegou a 185,0; em Maceió, as taxas foram de 24,3 e 327,6; em João Pessoa, as taxas foram de 14,4 e 313,0; e em Belém, de 10,7 e 134,6. Números agressivos, com os quais nunca vamos nos acostumar.

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Luciana Barreto

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