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O dia sem a mulher negra

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Escrito por Luciana Barreto

A luta contra o sexismo e o racismo

 

O rendimento da mulher negra brasileira cresceu 80% entre 1995 e 2015. O dado foi divulgado pelo Ipea às vésperas do Dia Internacional da Mulher e de uma mobilização mundial para protestar contra a violência e as desigualdades de gênero. O chamado “Dia sem Mulher”, celebrado neste 8 março, marca também os 40 anos em que a data foi adotada pela Organização das Nações Unidas. Ironicamente, a ONU institui o dia 8 de março como uma ‘celebração’ das conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres. Nem foi sempre assim. Em março de 1908, trabalhadoras de uma indústria têxtil dos Estados Unidos foram às ruas por melhores condições de trabalho. Em 1917, as trabalhadoras russas foram às ruas exigir pão e paz.
Inspiradas por este movimento, mulheres brasileiras se unem às ativistas de mais de 30 países e também vão às ruas. Com os piores indicadores sociais do Brasil, as mulheres negras alimentam a pauta. “O mais bonito desse movimento é o fato de ser sem fronteiras. Temos junto conosco Angela Davis, Chimamanda Adichie, Paulette Wellington e tantas outras. Estamos lutando pelo fim da violência contra a mulher que atinge mais e mais duramente a nós, mulheres negras”, explica a historiadora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mônica Lima. IMG_2045

Pesquisa do Instituto Datafolha mostra que 503 mulheres foram vítimas de agressão física a cada hora no país em 2016. São 4,4 milhões de brasileiras – 9% do total das maiores de 16 anos.
Entre 1995 e 2015, a população adulta negra com 12 anos ou mais de estudo passou de 3,3% para 12%. Apesar do aumento da escolaridade, a renda da mulher negra (R$ 1027, 05) continua sendo menos da metade da do homem branco (R$ 2509,70). A exemplo da Marcha das Mulheres Negras em novembro de 2015, ativistas se mobilizam para voltar às ruas e dar um empurrãozinho nos formuladores de políticas públicas.

“O fato de sermos mulheres trabalhadoras nos une, pois em todas as categorias há discrepância salarial, diferença de tratamento e respeito, sobretudo para as mulheres negras, sem citar as situações da dupla jornada e preconceitos em torno da trabalhadora e a maternidade”, reclama a professora e escritora Clarissa Lima.

O conceito de intersecionalidade tem sido cada dia mais cultivado entre as ativistas negras. Em outras palavras, está cada dia mais claro que, na pauta feminista, esse grupo sabe que precisa lidar cada vez mais com o racismo e o sexismo. “Eu não celebro o Dia Internacional da Mulher porque sempre achei ‘incoerente’, antes mesmo de conhecer qualquer forma de feminismo. Hoje, continuo avessa à comemoração e ainda mais atenta às especificidades nas pautas das mulheres negras”, esclarece a YouTuber carioca Nathália Braga.

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De uma maneira geral, mulheres entendem que a pauta de gênero e raça precisa de fortalecimento. “Celebro lembrando de nossa ancestralidade, me unindo a outras de nós, discutindo e fortalecendo o lugar que nossos corpos negros tem ocupado e o quanto nossa união é primordial pra nosso fortalecimento”, conclui Thaís Souto Amorim, coordenadora do Museu Capixaba do Negro.

Sobre a Autora

Luciana Barreto

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