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Na luta é que a gente se encontra

Escrito por Luciana Barreto

Nós não esqueceremos o enredo mangueirense! Não vão apagar esta história. Como diria a Mangueira, “Brasil, chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês.” A Abolição da Escravidão foi um movimento de resistência e articulação de personagens negros, “não veio das mãos de Isabel”. Quando o 13 de maio de 1888 não era nem mesmo uma ideia ou uma possibilidade, mulheres pretas já se articulavam para emancipar outras mulheres em condição de escravidão.

Em visita ao Brasil, o filósofo alemão Jürgen Habermas teria saído para uma confraternização com intelectuais brasileiros após uma conferência na USP. O restaurante escolhido foi o Senzala, um prestigiado estabelecimento paulista. Ao perguntar o significado do nome e ouvir a explicação, Habermas teria dito: “como vocês podem comer em um lugar com este nome?” Se levantou e foi embora. A história me foi contada pelo professor Mauricio Lissovsky, durante as gravações do longa “A Última Abolição”. Lissovsky me perguntou: “você comeria em um restaurante chamado Auschwitz?”

A palavra Senzala foi forçadamente ressignificada ao logo dos anos. É o que a Estação Primeira de Mangueira chamaria de “o avesso do mesmo lugar”.  Um dia depois do resultado que revelou que a verde e rosa era a campeã do carnaval de 2019, as manchetes de alguns jornais viravam pelo avesso o enredo mangueirense. “Mangueira é campeã com enredo esquerdista e homenagem à Marielle”, dizia uma delas. Uma briga política, um Brasil dividido e quase tudo apagado. Se tem algo que une o Brasil é o racismo. Vivemos sob uma indignação seletiva onde a falta de empatia com a causa negra-indígena impera. Por isso, a frase da intelectual Sueli Carneiro ficou famosa: “entre esquerda e direita, continuo sendo preta”! 

Nós não esqueceremos o enredo mangueirense! Não vão apagar esta história. Como diria a Mangueira, “Brasil, chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês.” A Abolição da Escravidão foi um movimento de resistência e articulação de personagens negros, “não veio das mãos de Isabel”. Quando o 13 de maio de 1888 não era nem mesmo uma ideia ou uma possibilidade, mulheres pretas já se articulavam para emancipar outras mulheres em condição de escravidão. Sabe-se que quituteiras do centro do Rio de Janeiro, por exemplo, acumulavam recursos para comprar a liberdade de outras pessoas em condição de servidão.

Mulheres pretas trabalharam ativamente para a construção da ideia de liberdade no Brasil. Desenvolveram estratégias e partiram para a ação efetiva. “Brasil, meu nego, deixa eu te contar” o que diz nossa brilhante escritora Conceição Evaristo: “eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer.” Assim fazem mulheres negras, dia após dia. Feliz Dia Internacional da Mulher!

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Luciana Barreto

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