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Luiz Gama

Luiz Gama 4
Escrito por Luciana Barreto

“Como eu nunca ouvi falar neste homem?”

Uma das pessoas mais notáveis do século XIX. Uma história hollywoodiana, que seria contada e repetida até se esgotar, não tivesse ela acontecido no Brasil. O ex-escravo Luiz Gonzaga Pinto da Gama, jornalista e advogado por devoção, recebeu o reconhecimento e o título da Ordem dos Advogados do Brasil, 133 anos após sua morte. E nas redes sociais, o comentário mais frequente ainda era: – como eu nunca ouvi falar neste homem?

Engana-se quem imagina que o garoto nascido livre, vendido como escravo aos dez anos de idade pelo próprio pai e que, já adulto, acabou por provar não só sua liberdade, como a de mais de quinhentas pessoas, é um personagem muito famoso nas faculdades de Direito. Deveria. Mas não é.  O advogado, professor de Direito e assessor do ministro Luiz Fux, Irapuã Santana, 29, é um grande admirador de Luiz Gama. Mas conta que buscou, por conta própria, conhecer a história do ex-escravo. “Quando eu comecei a estagiar, comecei a pesquisar, porque dentro da faculdade não circulavam essas informações. Eu só tive um professor negro, então não tinha referências”, conta Irapuã, formado pela Universidade do Estado do Rio, Uerj.

Luiz Gama já foi peça de teatro, personagem de romance e dá nome a diversos grupos e coletivos país. O famoso abolicionista tem sim sua história contada e recontada. Mas não popularizada, como resume o advogado e professor universitário Renato Ferreira, 38.  “Lendo sobre o Movimento Negro a gente descobre muita coisa que poderia estar na escola e ninguém fala. Eu tomei conhecimento sobre a vida de Luiz Gama já na faculdade, lendo o livro ‘Vultos negros na História do Brasil’”, explica.

O material sobre a vida de Luiz Gama é farto. São centenas de citações em livros, revistas, páginas na web, pesquisas e artigos.  Uma citação antiga e ilustre é a do autor de “O Ateneu”, Raul Pompéia, admirador de Luiz Gama.

“…não sei que grandeza admirava naquele advogado, a receber constantemente em casa um mundo de gente faminta de liberdade, uns escravos humildes, esfarrapados, implorando libertação, como quem pede esmola; […]E Luís Gama fazia tudo: libertava, consolava, dava conselhos, demandava, sacrificava-se, lutava, exauria-se no próprio ardor, como uma candeia iluminando à custa da própria vida as trevas do desespero daquele povo de infelizes, sem auferir uma sobra de lucro….”

Somente após provar sua liberdade, aos 17 anos, Luiz Gama aprendeu a ler e a escrever. Mas se consagrou também como escritor e jornalista. O abolicionista nos deixou um livro de poesias e vários artigos. Preciosidades.  Era o único intelectual negro a conhecer a experiência do cativeiro.  Falou-nos da sua própria vida, de um sonho de liberdade e de um Brasil desigual, e que parece bem atual.

“Sortimento de gorras para a gente do grande tom”:

Se a justiça, por ter olhos vendados,

É vendida, por certos Magistrados,

Que o pudor aferrando na gaveta,

Sustentam — que o Direito é pura peta;

E se os altos poderes sociais,

Toleram estas cenas imorais;

Se não mente o rifão, já mui sabido:

— Ladrão que muito furta é protegido —

É que o sábio, no Brasil, só quer lambança,

Onde possa empantufar a larga pança!

 

 

Saiba mais:

http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/o-sonho-sublime-de-um-ex-escravo

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Gama

Sobre a Autora

Luciana Barreto

4 Comentários

  • Querida Luciana se me permite chama-la assim, sou um grande admirador seu, pela luta simpatia, e outros tantos predicados, é de grande talento o nosso ilustre Luis Gama, entre tantos outros talentos, concordo que é de grande manta e de muito merecimento, toda homenagem
    a ele prestada, mas advogado não é titulo, titulo é de Bacharel em direito, Bacharel honores Calda, etc, mas a OAB, muitos professores, e muitos escritórios jamais vão reconhecer, que não haveria advogado se não houvesse o tão discriminado Bacharel.
    Mas não é por isso que vamos deixar de honrar mais esse digníssimo exemplo de luta em prol de nossa causa.

  • Prezada Luciana,
    Acompanho o seu trabalho e parabenizo-a pela competência e talento que possui, principalmente, por trazer, à tona, histórias importantes e interessantes, como esta que destaca parte da trajetória de Luiz Gama — de grande representatividade para nós negros — que é muito pouco conhecida neste Brasil extremamente preconceituoso. Também sou jornalista e negro e admiro muito a sua postura, luta e insistência para que o negro seja mais respeitado e que tenha mais oportunidades na sociedade hipócrita e racista.

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