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“Já temos nossa apresentadora negra”

Escrito por Luciana Barreto

“Estou desiludida com a comunicação, acreditando que é só pra gente branca mesmo.” O trecho impactante saiu de uma das centenas de mensagens que recebi depois que saí da TV. Me lembrei de uma conversa particular que tive há alguns meses com outra jornalista preta. Ela me narrava que estava distribuindo currículo em algumas emissoras de tv e que, pasmem, em uma delas ouviu a seguinte frase: “obrigada, mas nós já temos a nossa apresentadora negra.”

“Estou desiludida com a comunicação, acreditando que é só pra gente branca mesmo.” O trecho impactante saiu de uma das centenas de mensagens que recebi depois que saí da TV. Me lembrei de uma conversa particular que tive há alguns meses com outra jornalista preta. Ela me narrava que estava distribuindo currículo em algumas emissoras de tv e que, pasmem, em uma delas ouviu a seguinte frase: “obrigada, mas nós já temos a nossa apresentadora negra.”

Você tem alguma dúvida de que o racismo reserva espaço de privilégio para alguns? Nosso consagrado escritor e militante, Lima Barreto, se candidatou duas vezes à uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Na terceira, desistiu. Não conseguiu, em vida, reconhecimento de sua genialidade. Escritor, negro, jornalista e posicionado contra o racismo logo no pós-Abolição, o autor de Clara dos Anjos e Policarpo Quaresma se tornou alcoólatra, foi internado em um manicômio e morreu pobre.  

A luta pela sobrevivência e o racismo têm sido grandes obstáculos para a população preta no Brasil. A primeira atinge também o branco pobre. A segunda, tem impacto direto nos pretos, independente de condições sociais. Existe no Brasil uma espécie de estrangulamento econômico que, aliado ao racismo e ao machismo, coloca os homens brancos no topo da nossa pirâmide e as mulheres pretas na base. Além disso, pretos são os maiores desempregados; têm menor rendimento; são maioria entre os encarcerados e os assassinados. E tantos outros números que nós já sabemos.

Não é possível medir e entender o Brasil sem considerar todas essas condições. Desta maneira, tal como Lima Barreto, se não fizermos nada, estaremos celebrando Conceição Evaristo daqui a cem anos. 

Para quem é curioso, minha resposta à colega de profissão que anda pensando em abandonar a comunicação: “nunca desista! É isso que eles querem.”

Sobre a Autora

Luciana Barreto

1 Comentário

  • Há alguns dias atrás, fui fazer uma entrevista em um jornal. Até então, a pessoa que tratava comigo sobre a vaga via fone estava toda animada, parecia que eu ia “rolar”. Quando cheguei no jornal, assim que ela bateu o olho em mim disse: “Vc é Josué”. Ficou claro a frustração no rosto dela.

    É lógico que não fui contratado. Mas se eu sair falando isso muitos vão achar que é mimimi ou coisas da minha cabeça.

    Ah tem essa: Um jornalista branco, me falou que perdeu a vaga para um outro jornalista negro, porque a emissora queria um jornalista negro. Triste essa situação, ou contratam o negro para dizer: “Temos um negro na equipe, não somos racistas” ou não contratam porque é negro…

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