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Informamos que esta empresa não compactua com racismo

Escrito por Luciana Barreto

Cara gente branca! Pode acontecer com qualquer um, MAS NÃO ACONTECE! Assim funciona nosso pacto racista. Assim tem funcionado. A imagem do preto cordial que aceita ser “quase cidadão” está no imaginário das instituições. É um contrato que funciona perfeitamente: a empresa solta uma nota dizendo que “respeita a diversidade”, a polícia diz que fez seu trabalho, a sociedade entende que o “preto teve uma reação exacerbada” dentro do imaginário do “preto perigoso”, e a justificativa é: “pode acontecer com qualquer um”.


Minha avó tinha o hábito de me levar pra trabalhar com ela, precisamente nos locais onde havia crianças da minha idade. Doméstica, minha avó era diarista. Ficava o dia inteiro diante de um ferro de passar roupas. Me lembro de cada detalhe, especialmente das recomendações que me eram feitas. A lista era tão grande que começava ao entrar no primeiro ônibus, ainda na escuridão da madrugada, e permanecia horas depois, já na casa da “madame”. Não falar muito ou alto demais. Não ir aos outros cômodos da casa. Não comer o que tinha na geladeira. Aliás, nunca abrir a geladeira. Não aceitar o que a patroa oferecia por educação. E, principalmente, nunca se comportar como o filho da patroa. Ele certamente falaria alto, subiria no sofá, comeria no tapete e me chamaria pra correr dentro de casa. Este comportamento era inaceitável para a neta da empregada. Me lembro de seguir cada regra. Me lembro também dos comentários da “madame”: “essa menina é um bicho do mato”. “Você estuda? Qual série?”. De fato, a desconfiança intelectual procedia. Ela tinha um filho desenvolto, pronto pra comentar cada diálogo, cheio de opiniões… E eu, constantemente sob a censura necessária para sobrevivência. Minha avó acompanhava tudo em silêncio e com um sorriso discreto. Acho que minha avó não tinha grandes planos intelectuais pra mim. Na verdade, acho que ela me levava ao trabalho para poder passar roupas em paz e ficar mais livre das interpelações do filho da patroa.

O que esta memória tem a ver com a resposta da Caixa Econômica Federal no caso mais recente em que o empresário preto Crispim Terral, 34, foi agredido e arrastado para fora da agência pela polícia ao exigir que fosse atendido? Minha avó teria uma explicação simples e que, ao mesmo tempo, destrói a farsa de um Estado onde cidadãos têm seus direitos igualmente respeitados. 

Vejamos objetivamente a situação. Um cliente tem o seu direito violado – pode acontecer com qualquer um! Ele exige o cumprimento das normas da empresa e não tem o desejo atendido – pode acontecer com qualquer um! Ele se recusa a ser tratado como sub-cidadão – pode acontecer com qualquer um! Então ele se sente destratado pela instituição na pessoa de seus representantes, é agredido pelos seguranças da empresa, é retirado pela polícia como um marginal e um consenso costumeiro de quem tem a memória escravagista se forma em torno do caso: o cidadão se excedeu e cada um cumpriu seu papel. 

Cara gente branca! Pode acontecer com qualquer um, MAS NÃO ACONTECE! Assim funciona nosso pacto racista. Assim tem funcionado. A imagem do preto cordial que aceita ser “quase cidadão” está no imaginário das instituições. É um contrato que funciona perfeitamente: a empresa solta uma nota dizendo que “respeita a diversidade”, a polícia diz que fez seu trabalho, a sociedade entende que o “preto teve uma reação exacerbada” dentro do imaginário do “preto perigoso”, e a justificativa é: “pode acontecer com qualquer um”. 

Cara gente branca! Não vai acontecer com você! Não é coincidência que pretos andem tomando mata-leão ou morram sufocados em supermercados. Que advogadas pretas saiam algemadas e arrastadas nos fóruns durante exercício da profissão. Bem como consumidores sejam seguidos em estabelecimentos comerciais. Ter seus direitos respeitados em um Estado racista também é um privilégio. Minha avó sabia. 

Sobre a Autora

Luciana Barreto

2 Comentários

  • #Triste O termo nojento “Racismo” deve estar corretamente aplicado nessas situações horrendas e em muitas outras, eu sou um ser humano em construção e pessoas que fazem isso com outros seres humanos deve ser realmente de outra raça! Tem que ter muita empatia e humildade pra se conquistar e se manter no topo, seja lá qual for o seu “Topo”.

    A Diversidade nos enriquece como seres humanos e empresas são feitas de gente, logo as empresas ganham mais! Diversidade é poder! Luiz Ruffeil

  • Parabéns Luciana!
    Excelente texto. Traduziu com muita sensibilidade e competência o nosso inconformismo e sentimento de indignação.

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