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Escravizados

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Escrito por Luciana Barreto

Encontro, aberto ao público, apresenta biografias de pessoas brilhantes que foram escravizadas.

Mohammed Ali Sa’id nasceu no nordeste da Nigéria em meados de 1830. Era filho de um general das forças armadas. Mohammed foi capturado, escravizado e vendido por volta de 1850. Ficou conhecido na América com o nome cristão de Nicholas Said. Era fluente em nove idiomas, entre eles, inglês, francês, italiano, alemão e árabe. Chegou a ser professor em Detroit, Michigan, Estados Unidos. E escreveu sua própria biografia. Era uma pessoa notável. Assim como Mahommah Gardo Baquaqua, ex-escravo e abolicionista nascido no Benin. Baquaqua, fluente em oito idiomas, relatou na sua autobiografia a passagem pelo Brasil, no tempo em que foi escravizado em Pernambuco. É uma das poucas obras escritas por alguém que foi escravizado por aqui, contando o que passou.

As histórias de Nicholas Said e Mahommah Baquaqua se juntam a muitas outras e desembarcam entre os dias 3 e 6 de novembro no Rio de Janeiro. Fazem parte do SHADD Biography Project, que une pesquisadores de várias universidades do mundo para investigar e inventariar biografias e autobiografias de africanos da África Ocidental que em algum momento foram escravizados na diáspora africana.

“A diferença desse projeto é que ele não está preocupado com estatísticas, mas com a trajetória individual das pessoas”, explica o historiador brasileiro Nielson Bezerra, um dos integrantes do projeto SHADD. “Ao estudar trajetórias individuais, é possível combater a perspectiva de coisificação, oferecer uma ideia mais ampla que considera os africanos, mesmo na condução de escravizados, agentes de suas próprias histórias”, argumenta.

O Brasil trabalha muito pouco a herança africana e indígena nas salas de aula. Está aí a importância da Lei 10.639/2003. Bruno Véras, pesquisador da York University, no Canadá e integrante do projeto SHADD, lembra que, quando era professor do Ensino Fundamental em Pernambuco, “achava muito estranho quando as próprias imagens presentes nos livros didáticos retratavam os homens e mulheres escravizados distantes, pequenos e impessoais.”  Bruno se dedica hoje também ao Projeto Baquaqua, que vai disponibilizar em um site artigos, livros e matérias relacionados ao personagem. “A escravidão no Brasil não é uma história distante e impessoal. É uma história familiar em seus diversos significados. Estas histórias e biografias trazem a possibilidade ao público de  construir sentimentos de empatia, uma forma de evidenciar os elementos das experiências de uma pessoa (homem, mulher, criança, adolescente) que em determinado momento da sua vida foi colocado sob a escravidão”, finaliza Bruno.

O público está convidado a fazer esta viagem de quatro dias pela história. O encontro será no Museu Vivo São Bento, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

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Shadd

Sobre a Autora

Luciana Barreto

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