Destaque Opinião

Empoderadinhos

image
Escrito por Luciana Barreto

Minha avó tinha o hábito de me levar pra trabalhar com ela, precisamente nos locais onde havia crianças da minha idade. Doméstica, minha avó era diarista. Ficava o dia inteiro diante de um ferro de passar roupas. Me lembro de cada detalhe, especialmente das recomendações que me eram feitas. A lista era tão grande que começava ao entrar no primeiro ônibus, ainda na escuridão da madrugada, e permanecia horas depois, já na casa da “madame”. Não falar muito ou alto demais. Não ir aos outros cômodos da casa. Não comer o que tinha na geladeira. Aliás, nunca abrir a geladeira. Não aceitar o que a patroa oferecia por educação. E, principalmente, nunca se comportar como o filho da patroa. Ele certamente falaria alto, subiria no sofá, comeria no tapete e me chamaria pra correr dentro de casa. Este comportamento era inaceitável para a neta da empregada. Me lembro de seguir cada regra. Me lembro também dos comentários da “madame”: “essa menina é um bicho do mato”. “Você estuda? Qual série?”. De fato, a desconfiança intelectual procedia. Ela tinha um filho desenvolto, pronto pra comentar cada diálogo, cheio de opiniões… E eu, constantemente sob a censura necessária para sobrevivência. Minha avó acompanhava tudo em silêncio e com um sorriso discreto. Acho que minha avó não tinha grandes planos intelectuais pra mim. Na verdade, acho que ela me levava ao trabalho pra poder passar roupas em paz e ficar mais livre das interpelações do filho da patroa.

Hoje em dia, sempre que ouço ou leio que algumas classes, especialmente os negros, não lutam por mudança, lembro das crianças empoderadas da classe média. Penso neste sistema que exige resignação dos mais pobres para sobreviver. Me alegro com o surgimento do termo “empoderar”. E percebo que estamos mudando. Estamos formando líderes também entre os mais pobres. Os “empoderadinhos” chegaram!

Sobre a Autora

Luciana Barreto

3 Comentários

  • Lu quando li sua história me identifiquei.
    Minha mãe também foi diarista, acompanhá-la era um passeio. Todas as recomendações à filha da diarista, me fazia pensar que iria seguir por outro caminha e não seria o de diarista.
    Precisamos estudar e empoderar cada vez mais pessoas para melhorar esse País, e realmente mudar a história.
    Parabéns minha linda, sempre que posso leio suas postagens. Sou sua fã!

Deixe uma resposta para Dalva Maria Soares X