Entrevistas

Desde que me tornei negra…

luciana barreto
Escrito por Luciana Barreto

Fabíola Oliveira, da “Colares D’Odarah”, revela as dificuldades do afroempreendedorismo no país.

“É um processo difícil o de ser empresário no Brasil. O governo tem dado insumos, mas ninguém te ensina a negociar com grandes empresários. Ninguém te ensina a sair da senzala.” A crítica da afroempreendedora Fabíola Oliveira é extremamente oportuna, num momento em que mais da metade dos empreendedores brasileiros se declaram negros. A conversa com a empresária, que nasceu na favela e chegou aos espaços da elite, é recheada de frases que te deixam com a respiração curta. Fabíola te dá impressão que acumulou anos de munição, engasgada, e decidiu virar uma metralhadora. Não está disposta a usar meias palavras. Vai direto ao ponto, mesmo que você não pergunte.

Fabíola Oliveira tem 32 anos. Pedagogia é a sua formação acadêmica, mas ela decidiu empreender. Fazer turbantes, colares e brincos são seu ofício. Depois de um acompanhamento técnico, a jovem pedagoga conseguiu entrar num dos espaços mais descolados e cobiçados de venda da zona sul carioca: a Feira Hype. E foi lá que se descobriu negra. “Eu saí do lugar do invisível para o exotismo. As pessoas passavam, me olhavam como exótica, bonita. Não compravam. E eu não entendia. Eu fui me tornando cada vez mais preta. E comecei a entender que, no afroempreendedorismo, o racismo precisa ser discutido.”

O trabalho com turbantes foi a forma de discutir o assunto. A carioca já tinha visto uma colega de trabalho sofrer racismo porque estava usando um turbante e se perguntou: “o  que esse tal de turbante faz?”. A reposta veio anos mais tarde. “O turbante faz você ser preto. Enquanto você é preto mas medido pela régua das referências brancas, tudo bem. Mas se você decide ser preto, o pau canta”, finaliza Fabíola.

A empresária não só decidiu ser preta, como juntou os iguais a ela e fundou o “Odarah Bazar”, um espaço de vendas, rodas de diálogos, oficinas de turbantes e apresentações culturais. “A gente começou a ver pessoas não-pretas chegando nesse espaço e se comportando como nós quando chegamos em alguns espaços, como os grandes shoppings. A pessoa chega e diz: “posso entrar?” e eu respondo: “claro, minha flor”. Muitas vezes a pessoa não tem coragem de dizer que fez a pergunta porque ali só tem preto. Tem sido um espaço de desconstrução, onde pessoas brancas têm a oportunidade de descobrir o seu racismo”, arremata Fabíola.Odarah Bazar: primeiro sábado de cada mês na Febarj, Arcos da Lapa – Centro – RJ

 

 

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Luciana Barreto

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