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Deixe o game. Jogue fora o preconceito!

Escrito por Luciana Barreto

Nem games, nem bullying. O que chamou atenção no caso de Suzano foi um menino negro, com um machado cravado no tórax, caminhar por quatrocentos metros pedindo ajuda sem que fosse socorrido.

Em agosto de 2017, Monalysa Alcântara venceu o concurso Miss Brasil e se tornou a terceira mulher negra a ganhar o título na história do país. No ano anterior, a paranaense Raíssa Santana tinha quebrado um jejum de 30 anos sem uma representante negra brasileira no Miss Universo – Deise Nunes foi a primeira negra a vencer o Miss Brasil, em 1986. As duas últimas misses negras, após vencerem, foram vítimas do ódio racial na internet. As frases iam de “cara de empregada”, “não tem perfil de miss” até os desejos de morte: “não é exagero, só quero que ela morra antes do MU (miss universo) para a Ju assumir o posto”.

O estudo “Formas Contemporâneas de Racismo e Intolerância nas Redes Sociais”, desenvolvido pelo professor Luiz Valério Trindade, da Universidade de Southampton, na Inglaterra, revela que mulheres negras são 81% das vítimas de ódio no Facebook. E 65,5% dos odiadores são homens. O professor chama atenção para a vulnerabilidade dos jovens, que, no Brasil, são 11,1 milhões de usuários na faixa etária de 13 a 17 anos. O que tudo isso tem a ver com o ataque em Suzano? Uma semana depois do ataque que deixou 10 mortos na escola de São Paulo e levantou uma grande discussão sobre a influência dos games e os casos de bullying na atividade dos meninos brancos, o jornal Correio Brasiliense trouxe a seguinte manchete: ”quem é o brasiliense responsável pelo site que inspirou ataque em Suzano”. O jornal detalha como o homem branco de classe média alta, de 33 anos, que odeia negros, mulheres, LGBTs e nordestinos, teria inspirado e alimentado através da rede mundial os autores do massacre da escola de Realengo, no Rio, em 2011 e de Suzano, no último dia 13. 
Nem games, nem bullying. O que chamou atenção no caso de Suzano foi um menino negro, com um machado cravado no tórax, caminhar por quatrocentos metros pedindo ajuda sem que fosse socorrido. Entre os mortos e feridos, aliás, muitos negros. 
Pais e mães, olhem para os games e estejam atentos ao bullying, mas não se esqueçam de se livrar dos seus próprios preconceitos, muitas vezes disfarçados de brincadeira ou piada. A semente do ódio pode estar sendo plantada nos jantares de família, nas conversas à tarde, nas birras políticas,  muitas vezes dentro de casa. Elas só precisam de catalisador com um computador na mão. Como dizia Mandela, “ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.”
E você deve estar se perguntando também como um país como o Brasil pode ter tido apenas três misses negras em toda a sua história? Se não está se perguntando, deveria!

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Luciana Barreto

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