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Cinco jovens metralhados na Zona Sul do Rio

Escrito por Luciana Barreto

Edu conseguiu o primeiro emprego. Seria auxiliar administrativo no consulado dos Estados Unidos. Tinha inglês fluente. Tinha viajado para vários países. Chamou outros quatro amigos, entrou no carro e foram até o Baixo Gávea. Na volta, foram metralhados com 111 tiros, perto do Rebouças. Uma carga havia sido roubada nas redondezas e os policiais descarregaram os fuzis. Se você chegou até aqui, deve estar impaciente e confuso. Esta história não faz o menor sentido. Não mesmo! Então vamos à história real! 

Roberto comemorava o primeiro emprego como auxiliar de supermercado e, na volta de uma lanchonete com outros quatro amigos, teve o carro metralhado na zona norte do Rio, sem uma pergunta sequer. Aconteceu em 28 de novembro de 2015. O caso conhecido como Chacina de Costa Barros destruiu famílias. A mãe de Roberto morreu logo após saber que os policiais aguardariam o julgamento em liberdade.  

Entre 2006 e 2016, quase 325 mil jovens foram assassinados no Brasil. Ouso dizer que este número não escandaliza o Brasil porque 77% deles são negros. Pelo menos um Boeing cai toda semana no Brasil com jovens pretos. A situação da morte de jovens negros em nosso país é tão dramática que permitiu uma análise extrema do professor João José Reis, no filme recém saído dos cinemas “A Última Abolição”: 

“Os escravos estavam muito mais protegidos que nossos jovens negros porque eles eram propriedade, eles tinham que ser preservados, eles precisavam ser alimentados. Os senhores brigavam com a polícia quando a polícia batia em seus escravos porque era deles, dos senhores, a prerrogativa de puni-los. Hoje os jovens negros não tem senhores para protegê-los. Não estou aqui pregando o retorno da escravidão, que fique bem claro. O que acontece hoje é uma tragédia tão grande que nos permite fazer este tipo de comparação esdrúxula como estou fazendo.”

A taxa de homicídio entre os jovens negros é quase quatro vezes maior que entre os brancos. Obviamente, como disse o professor, nunca faremos uma apologia à escravidão e não se trata de negar todos os horrores de 350 anos de cativeiro e a mancha que deixou em nossa história. Trata-se de você, leitor. Trata-se de se envergonhar por não ir às ruas, de não chorar ou fazer campanhas nas redes sociais. Helicópteros sobrevoam regiões periféricas atirando. Autoridades incentivam os assassinatos por parte de agentes públicos. O Estado mata! E você? O que faz? Nossa falta de empatia com esta calamidade, nossa comoção seletiva tem um nome: racismo estrutural. 

Sobre a Autora

Luciana Barreto

2 Comentários

  • A abordagem policial na Zona Sul usa inteligência, investigação e preza pela ausência de tiros, saiu das zonas nobres tudo muda, sai a inteligência e entra a força, a violência e o tiro. Enquanto vidas negras não forem valorizadas de igual para igual a sociedade vai viver eternamente na precariedade e no ciclo vicioso da violência gerando mais violência. #vidasnegrasimportam

  • Em 2013 os peritos da ONU apontaram esse fenômeno como “a fabricação de um inimigo interno que (supostamente) justifica táticas militares de controle de “comportamentos criminosos”. Os jovens negros brasileiros fazem parte, hoje, daquilo que o sociólogo Jessé Souza define como a “Ralé brasileira”… sua morte não tem a menor importância pra sociedade brasileira…

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