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Aprenda com o passado

Escrito por Luciana Barreto

Tento revisitar biografias de luta, como a de Carlos Alberto Caó e Adbias Nascimento. Trago em meu corpo, tatuado, um Sankofa, um adinkra que simboliza o resgate ao passado. Sankofa é uma ave migratória que consegue voar para frente e olhar para trás. Penso que teremos que encontrar a perspicácia de Caó e a coragem de Abdias. Ainda sobre Sankofa, diz-se: “não é nenhum tabu retornar e pegar o que se esqueceu. Sempre se pode corrigir os erros.” É um convite. Vamos?

Me lembro ainda hoje da sensação de admiração e gratidão em meu primeiro encontro com o jornalista, advogado e deputado constituinte, Carlos Alberto Caó de Oliveira, político que nos deixou em 2018. Era uma entrevista especial para falar da lei que tornou o racismo crime inafiançável e imprescritível. Eu estava absolutamente embevecida para ouvir uma história heroica de como ele conseguira articular com deputados que negavam o racismo e exaltavam a nossa “democracia racial” e convencê-los da necessidade de criminalizar a prática racista. Ao passo que o indagava sobre aqueles dias, Caó olhou para mim, soltou um respiro, cruzou as mãos e me disse, com muita franqueza, que a Assembleia Constituinte foi uma grande correria, com deputados “se batendo” e que ele, quando viu aquela algazarra, redigiu o texto que seria o inciso XLII do artigo quinto da constituição. Colocou lá, ficou quieto e muitos sequer sabiam do que se tratava.

Carlos Alberto Caó de Oliveira em 2015

Fiquei, durante muitos anos, pensando sobre a atitude de Caó. Me instigava também os relatos da vida parlamentar de Abdias Nascimento, conforme aparece em sua biografia, denunciando as mazelas enfrentadas pela população afrobrasileira, como único deputado preto em um congresso totalmente branco, com forças conservadoras que exaltavam nossa “harmonia racial” e “uma esquerda ideológica que costumava partilhar esse mesmo padrão de comportamento, arguindo ainda que lutar contra o racismo seria dividir a classe operária e prejudicar a revolução”*. Ambos enfrentaram um país em ebulição.

Assembleia Constituinte

Leio com apreensão a quantidade de investidas contra políticas públicas que amenizam o sofrimento dos mais pobres, quase todos pretos, e tentam reparar, minimamente, as monstruosidades históricas que nos deixou os mais de trezentos anos de escravidão. Neste vai e vem “democrático”, as cotas raciais estão sempre no topo, brilhando na categoria “incomodo sempre”. E as justificativas não mudaram muito do tempo em que elas nem existiam, do tempo em que se tinha um único negro eleito representando a diversidade brasileira nos espaços de poder. O que também não mudou muito.

Tento revisitar biografias de luta, como a de Carlos Alberto Caó e Adbias Nascimento. Trago em meu corpo, tatuado, um Sankofa, um adinkra que simboliza o resgate ao passado. Sankofa é uma ave migratória que consegue voar para frente e olhar para trás. Penso que teremos que encontrar a perspicácia de Caó e a coragem de Abdias. Ainda sobre Sankofa, diz-se: “não é nenhum tabu retornar e pegar o que se esqueceu. Sempre se pode corrigir os erros.” É um convite. Vamos?

*”Livro: Abdias Nascimento : Grandes Vultos que Honraram o Senado”, de Elisa Larkin Nascimento

Sobre a Autora

Luciana Barreto

2 Comentários

  • Abdias Nascimento. Creio que a primeira vez que tive a minha atenção voltada para este nome, foi por ocasião do meu interesse pelo Pan-africanismo. Um movimento que teve início no 1º Congresso Pan-africano, realizado em Paris na segunda década do século XX e que teve grande influência na política e na independência de países africanos e na luta dos negros na África ou em diáspora, por igualdade racial e por direitos civis. Vale o registro que, nesse período, a segregação racial assumia contornos de extrema violência, em especial no Caribe e nos EUA. A luta contra a segregação racial se constituiu em uma das principais bandeiras do movimento, que se espalhou pelo mundo. Notadamente na Europa e Estados Unidos. Senão o único representante da América do Sul, Abdias foi certamente o único brasileiro a assumir a militância e, com ela, a divulgação e luta pelo pensamento pan-africanista.
    Esteve junto a figuras de renome do pensamento e da política negra, na África ou fora dela. Nomes como Du Bois, Marcus Garvey, Kwame Nkrumah, entre outros.

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